quarta-feira, 14 de março de 2018

Poesia e poema: qual a diferença?

       Certa vez, em 2015, quando este texto foi originalmente publicado no meu antigo blog, o "Blog do Leno", eu fui indagado a respeito da diferença existente entre poesia e poema, isto é, se haveria alguma, pois a pessoa que me fez a pergunta ficou confusa ao ouvir uma professora de língua portuguesa e literatura utilizar "fazer uma poesia" no lugar de "fazer um poema", ao se referir a um texto escrito em versos.





       Pois bem, basicamente, existe sim uma diferença entre poesia e poema, da mesma forma que existe entre, digamos, grafia e grafema, mas para deixar bem entendido, farei um passeio pela etimologia e por outras coisitas, resgatando e atualizando este texto em comemoração tanto ao Dia Nacional da Poesia (14 de março, aniversário de Castro Alves), quanto ao Dia Mundial da Poesia (21 de março).
       Assim, para começo de conversa, deve-se dizer que ambas as palavras, "poesia" e "poema", são oriundas do grego, a primeira se originando de poiesis ("atividade de produção artística" ou "atividade de criar/fazer"), enquanto a segunda surgiu a partir do termo poema ("ficção, trabalho/obra poética", literalmente significando "algo feito ou criado").
       Posteriormente, o termo poiesis acabou entrando no latim por meio da variante poesis ("composição, poesia", literalmente, "uma elaboração, fabricação"), que deu no latim poesis e no latim vulgar poesia, donde se originou o termo provençal, espanhol, português e italiano poesia, bem como o antigo francês poesie, que originou o inglês poesy ("poesia, linguagem e ideias poética, literatura, um poema, uma passagem de poesia", passando a significar "a arte da poesia" somente no século 15). O segundo termo, por sua vez, adentrou no latim como poema (com o sentido de "composição em verso, poesia"), que deu o francês médio poème, de onde surgiu o inglês poem.
       De qualquer forma, a origem de ambos os termos, poiesis e poema, está no verbo grego poeinpoiein (fazer, fabricar, compor), que também originou poietes (autor, poeta), cuja variação poetes entrou no latim e originou a palavra poeta, que deu no antigo francês poete (atualmente, poète), no inglês poet [1] e no português poeta.
       Acontece que a raiz desse verbo estaria no idioma proto-indo-europeu (PIE, para os íntimos), no hipotético termo *kwoiwo- (fabricação), de raiz *kwei- (empilhar, construir, fazer, fabricar) e que também teria originado o sânscrito cinoti (amontoamento, empilhamento) e o antigo eslavo eclesiástico činu (ação, feito, ordem). O antigo inglês scop (utilizado para todo tipo de escritor ou compositor e trabalhos literários) compartilha dessa raiz e atualmente sobrevive como o termo scoff.
       Mas espere, não é "apenas" isso, há uma última informação que é crucial para atestar a diferença entre poesia e poema: além da já citada origem no verbo grego poeinpoiein ou poieo, cada uma das duas palavras possui também uma terminação grega própria, sendo que essas terminações não costumam ser mencionadas quando se trata da etimologia delas [2], no caso, -sis e -ma.
       Enquanto a primeira terminação, presente tanto em poesia quanto em cinese (de kinesis, "ato de mover/movimentar", a partir do verbo kineo, "mover, movimentar"), designa "a ação de" (tal qual o sufixo -mento, em casamento e enforcamento), a outra terminação designa "o resultado da ação de", também estando presente em palavras como drama ("resultado da atuação", do verbo drao, "atuar, fazer uma ação") e cinema ("resultado da movimentação", a partir de kinesis).
       Tem-se, ainda, a comprovação da existência e do significado do sufixo -sis por meio do seguinte parágrafo:


Specifically, poisies refers to different realms of existence (social ontologies) as inter-subjectively shared communal practices and languages. These mobilize specific subjectivities to enable collectively-formed social practices and of purposive activities. More than the instrumental definition of “to make” found in English, poieo connotes the deployment of one’s power (ergon) that stems from the sets of relations and skills needed to realize this purpose, including the different systems of and contexts for interpreting those relations and skills. For instance, when Odysseus sought to escape from the island of Calypso, he “made” a raft. But he was not just making a particular raft. He was also drawing on a larger vision, purpose, and path of social relations that motivated the making of this particular raft for a life journey. The suffix “sis” to poie-sis always indicates an active, dynamic force or purposive activity that enables various kinds of social relations, subjectivities, and things. (AGATHANGELOU; LING. 2009, p.91)


       Onde podemos ler que "o sufixo 'sis' para poie-sis sempre indica uma forma ativa de um verbo, força dinâmica ou atividade intencional que permite vários tipos de relações sociais, subjetividades e coisas", noutras palavras, "o ato ou ação de". No mesmo parágrafo, também se tem a confirmação da forma verbal poieo (que, até então, eu somente havia encontrado na extinta comunidade do Orkut denominada Etimologia), que é vista também no livro de Hardy Hanse e Gerald M. Quinn, conforme a seguinte imagem:



Acima, pode-se ver o verbo poieo, "criar, produzir, fazer" (make; do), em algumas de suas formas no grego, transcritas a seguir: ποιέω (poieō) [ποιῶ (poiô)], ποιήσω (poiēsō), ἐποίησα (epoiēsa), πεποίηκα (pepoiēka), πεποίημαι (pepoiēmai), ἐποιήθην(epoiēthēn). (HANSEN; QUINN. 1992. p.245).


       Portanto, a diferença entre a poesia e o poema existe e é simples de ser compreendida: aquela é "a ação de criar, criação", enquanto esta é "o resultado da criação". Assim, por mais que a palavra poema tenha adquirido o significado de "produção literária em versos", essa diferença não sofre alteração na medida em que o poema continua a ser o produto da poesia, o resultado físico da ação de criar.
       Para encerrar, quanto ao "fazer uma poesia" ou "fazer um poema", penso que elas não possam, ou melhor, não deveriam ser utilizadas como sinônimas. Na verdade, creio que a primeira só seria utilizável se fosse no sentido de "fazer um curso de poesia", tal como em "vou fazer matemática" ou "vou fazer cinema". Eu também sei que, frequentemente, ouvimos dizer que isso ou aquilo é "poético" ou que "tem poesia", mas, embora eu entenda que se queira dizer que essa coisa assim adjetivada é "bela" ou "cheia de inspiração" ou "inspiradora", eu não concordo com a ideia de que tudo seja poesia.
       Assim, a poesia é um tipo especifico de arte e mais especificamente de literatura artística [3], a qual compreende a produção versificada e uma maneira incomum de se comunicar algo, não sendo à toa que muitas figuras de linguagem, cuja utilização na prosa é recriminada (por não facilitar a comunicação, principalmente), são essenciais para a composição de um poema, que é o produto da poesia assim como o filme (ou "obra cinematográfica") é o produto do cinema.





NOTA 

[1] A utilização desta palavra como sobrenome, entre os anglófonos, data de cerca de 1200.


[2] Tanto que deu um trabalho do cão encontrar referências que tratassem delas. A propósito, quanto ao sufixo -ma, ainda não encontrei nada sobre em uma fonte que não seja um dicionário informal em português ou em inglês ou um site que não cite fontes nas quais seja possível confirmar a informação. Entretanto, como a informação dada pelo (falecido) José Roberto Miliumas na extinta comunidade do Orkut "Etimologia" se mostrou deveras correta (a forma poieo do verbo grego e ao sufixo -sis), presumo poder ficar "sossegado" quanto a isso - por enquanto.

[3] Digo "literatura artística" porque a literatura é uma das 9 (ou 11) artes, mas também se utiliza o termo "literatura" para produções claramente sem nenhuma finalidade artística, como é o caso da literatura médica e da literatura jurídica.






REFERÊNCIAS



AGATHANGELOU, Anna M.; LING, L.H.M. Poisies. In:___. Transforming World Politics: From Empire to Multiple Worlds. New York: Routledge, 2009. p.91-92. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=lnOTAgAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>.


HANSE, Hardy; QUINN, Gerald M. Contracted verbs with present tense stems in -ɛ-. In:___. Greek: An intensive course. New York: Fordham University Press, 1992. p.236-245. Disponível em: <https://pt.scribd.com/doc/149667276/Hansen-Hardy-Quinn-Gerald-M-Greek-an-Intensive-Course>.

HARPER, Douglas. Poem. In:___. Online Etymology Dictionary. Disponível em: <http://www.etymonline.com/index.php?term=poem&allowed_in_frame=0>.

HARPER, Douglas. Poesy. In:___. Online Etymology Dictionary. Disponível em: <http://www.etymonline.com/index.php?term=poesy&allowed_in_frame=0>.

HARPER, Douglas. Poet. In:___. Online Etymology Dictionary. Disponível em: <http://www.etymonline.com/index.php?term=poet>.

MILIUMAS, José Roberto. Resposta. In: ORKUT. Etimologia: Qual a origem e o sentido do sufixo -ema? Publicado em: 04 nov. 2005. Disponível em: <http://orkut.google.com/c119105-t8b07dd9a77cf246d.html>

ORIGEM DA PALAVRA. Poesia e Poema. In:___. Consultório Etimológico. Publicado em: 09 nov. 2010.. Disponível em: <http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/poesia/>.


PORTILHO, Gabriela. Qual a diferença entre poema, poesia e soneto? In: NOVA ESCOLA. Editado por: NICOLIELO, Bruna. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/qual-diferenca-poema-poesia-soneto-670485.shtml>.

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