ERAM OS GATOS ASTRONAUTAS

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?

Essa célebre questão está presente no clássico livro "Alice no País das Maravilhas" ("Alice's Adventures in Wonderland" ou "Alice in Wonderland", no original), escrito por Charles Lutwidge Dodgson sob o pseudônimo Lewis Carroll, e é tradicionalmente apresentada como algo que não faz o menor sentido, uma charada sem resposta ou mesmo como um símbolo da loucura, loucura essa que a personagem que faz tal questionamento no livro, o Chapeleiro Maluco, tem para dar, vender, comprar de volta, revender e ganhar de presente. Entretanto, e se tal enigma tiver algum fundo de lógica e realmente existir uma semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?


"Why is a raven like a writing desk?"
"Por que um corvo é como uma escrivaninha?"
- Chapeleiro Maluco.


Bem, ao longo dos anos, essa charada foi respondida várias e várias vezes. Por exemplo, o enxadrista Sam Loyd [1] propôs duas respostas no seu livro Cyclopedia of Puzzles, publicado postumamente em 1914:


1 - Because the notes for which they are noted are not noted for being musical notes. (Porque as notas pelas quais eles são observado não conhecidas por serem notas musicais).

2 - Because Poe wrote on both. (Porque Poe escrevia sobre ambos).


Enquanto Aldous Huxley deu a seguinte resposta em 1928:


"Because there is a 'b" in both and an 'n' in neither (Porque há um 'b' em ambos e um 'n' em nenhum)."


E Cyril Pearson, em momento não datado, respondeu o seguinte:


"Because it slopes with a flap. (Porque se inclina com uma aba.)"


E o próprio Carroll se viu meio que obrigado a falar sobre uma provável resposta para o enigma, fazendo-o no prefácio da edição de 1896 do livro supracitado:


"Enquiries have been so often addressed to me, as to whether any answer to the Hather's Riddle can be imagined, that I may as well put on record here what seems to me to be a fairly appropriate answer, viz: "Because it produce few notes, tho they are very flat, and it is never put with the wrong end in front!" This, however, is merely an afterthought; the Riddle, as originally invented, had no answer at all."


Isto é:


"Foram tantas as consultas a mim dirigidas, para saber se alguma resposta para o Enigma do Chapeleiro poderia ser imaginada, que eu também posso registrar aqui o que me parece ser uma resposta bastante apropriada, a saber: 'Porque ele pode produzir umas poucas notas, apesar de muito planas; e nunca são colocadas com o lado errado para a frente!' Isto, entretanto, é meramente um adendo, o Enigma, como originalmente inventado, não teve qualquer resposta em tudo."


Porém, eu penso que exista outra resposta, com muito mais sentido e não sou o único a pensar isso - muito embora, apesar de ser uma resposta até que fácil de se alcançar, eu tenha ficando meio chateado em descobrir que outros também já haviam chegado à ela (vide texto de Cecil Adams, nas referências), mas essa chateação só ocorreu (passageiramente) porque eu nunca havia visto ou ouvido ninguém comentando a mesma - além de mim mesmo. Mas enfim, vamos construir a resposta.




Diz-se que os chineses, por volta de 1000 a.C., já utilizavam pequenos pincéis para escrever e que vários povos antigos utilizaram diversos instrumentos para tal finalidade. Hoje, entretanto, além dos lápis, utilizamos canetas, sendo que há canetas de ponta porosa, canetas esferográficas e canetas-tinteiro.

As primeiramente mencionadas foram as últimas a surgir, com um modelo primitivo sendo utilizado nos anos 40 e o modelo atual só surgindo em 1962, quando o japonês Yukio Horie apresentou a caneta com ponta porosa feita de fibra sintética. Do aperfeiçoamento desse produto surgiu, em 1973, a Roller Ball, que une o sistema da caneta de Yukio Horie com o sistema da esferográfica - a tinta sendo absorvida por uma ponta porosa, que molha a parte traseira de uma bolinha metálica.

E por falar na esferográfica, essa caneta é uma invenção do jornalista húngaro Bíró László József, que entrou com pedido da patente em 1938, juntamente com o seu irmão Georg. Basicamente, a caneta utiliza uma bolinha metálica que impede que a tinta de secagem rápida seque e permite que a tinta flua para fora da caneta a uma velocidade controlada.


Bíró László József (húngaro) ou Ladislao José Biro (castelhano).


Mas, antes da invenção de László e Georg, utilizava-se a caneta-tinteiro. Embora as memórias da czarina russa Catarina, escritas em 1748, façam menção a um instrumento similar, o primeiro modelo comercial somente foi criado em 1884, pelo americano Lewis Edson Waterman, em cujo modelo a tinta era injetada no reservatório com uma espécie de seringa. Mas... E antes disso? Antes disso, reinavam absolutos os modelos feitos com penas de aves, principalmente penas de ganso.




Eu sei, você deve estar se perguntando o que todo esse papo envolvendo canetas tem a ver com o enigma em questão. Pois bem, o livro onde consta o enigma foi originalmente publicado em 1865, ou seja, 19 (dezenove) anos antes da criação do primeiro modelo comercial de caneta-tinteiro. Isso quer dizer que Lewis Carroll muito provavelmente utilizava penas para escrever.

E a palavra "pena" vem do latim penna, que queria dizer isso mesmo, "pena (de ave e não "pena" enquanto dó ou penitência), pluma". Só que penna também deu o Antigo Francês pene, registrado lá pelo século XII e que, por sua vez, originou o inglês pen, cujo registro data do século XIII, significando "instrumento de escrita" [2].

Ou seja, a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha é que ambos tem penas, o que, em inglês, seria algo como "A raven is like a writing desk because both have feathers: the first really has feathers and the second has feather pens" (um corvo é como uma escrivaninha porque ambos tem penas: o primeiro realmente tem penas e o segundo tem canetas de pena).









NOTAS

[1] Samuel Loyd (nascido em 30 de janeiro de 1841, Philadelphia, Pennsylvania, E.U.A. - falecido em 10 de abril de 1911, New York, New York, E.U.A.) foi um fabricante de quebra-cabeças, que é mais famoso por compor problemas de xadrez.

[2] De acordo com Douglas Harper, o termo inglês feather viria do antigo inglês feðer, que teria tanto o significado de "pena", quanto de "caneta".





REFERÊNCIAS

ADAMS, Cecil. Why is a raven like a writing desk? Publicado em: 18 Abr 1997. Disponível em: <http://www.straightdope.com/columns/read/1173/why-is-a-raven-like-a-writing-desk>. Acesso em: 05 Nov 2015.

CARROLL, Lewis. Alice's adventures in Wonderland. 1866. Disponível em: <http://www.gasl.org/refbib/Carroll__Alice_1st.pdf>. Acesso em: 05 Nov 2015.

CARROLL, Lewis. Alice's adventures in Wonderland & Through the looking glass. 2004. Disponível em: <http://ranjennysedu.com/images/Lewis%20Carroll%20-%20Alice's%20Adventures%20In%20Wonderland%20&%20Through%20The%20Looking-Glass.pdf>. Acesso em: 05 Nov 2015.

HARPER, Douglas. Feather. In:___. Online Etymology Dictionary. 2001-2021. Disponível em: <https://www.etymonline.com/word/feather#etymonline_v_1182>. Acesso em: 12 Fev 2021.

HARPER, Douglas. Pen. In:___. Online Etymology Dictionary. 2001-2021. Disponível em: <http://www.etymonline.com/index.php?term=pen&allowed_in_frame=0>. Acesso em: 05 Nov 2015.

MUNDO ESTRANHO, Revista. Como surgiu a caneta? Disponível em: <http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-surgiu-a-caneta>. Acesso em: 05 Nov 2015.

RUSSELL-AUSLEY, Melissa. A história da caneta esferográfica. Disponível em: <http://casa.hsw.uol.com.br/canetas-esferograficas2.htm>. Acesso em: 05 Nov 2015.

THE EDITORS of Encyclopaedia BritannicaPen. Disponível em: <http://www.britannica.com/technology/pen-writing-implement>. Acesso em: 05 Nov 2015.

THE EDITORS of Encyclopaedia Britannica. Sam Loyd. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Sam-Loyd>. Acesso em: 10 Dez 2020.
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